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Para Lassie

por Regina Stella Finocchio dos Anjos

Durante alguns poucos anos de minha vida, pude trabalhar e conviver com uma excelente profissional, tremendamente exigente, traços esses de sua personalidade talvez herdados pela criação um tanto rígida.

Filha única de pais europeus recebeu educação em ótimos colégios, cursou talvez a melhor escola em medicina veterinária e com isso pode se tornar muito boa naquilo que fazia. Embora nossa convivência diária por vezes se tornava extremamente difícil, porque ao mesmo tempo em que corria para socorrer um frágil animalzinho, dava ordens, reclamava de alguma coisa que estava fora do lugar, mas enfim, foi através dessa querida e difícil pessoa que eu pude conhecer o encantador mundo de seres que pertencem à classe dos animais chamados ?irracionais?.

E foram nesses anos que passei com eles que descobri o quanto é preciosa a vida desses bichinhos, e que antes de aprenderem alguma coisa comigo, ao contrário me ensinaram o quanto eu poderia aprender com eles. Alguns poderão dizer...- São seres irracionais desprovidos de sentimentos como planejamento, ganância, -. Poderia até concordar, se eu não tivesse feito parte diuturnamente de suas vidas. Jamais esquecerei de momentos grandiosos, que me fizeram ver quanto tudo é feito de maneira correta, para que as coisas nesse vasto universo caminhem de maneira a se cumprir todo um círculo, sem começo, nem fim.

Foi assim que numa tarde fria de julho chegou até a clínica uma senhora de meia-idade, com sua cadelinha nos braços. Ela veio implorando que a veterinária ?sacrificasse? sua velhinha, ela explicou que a mesma já contava longos dezoito anos, não tinha nenhuma doença grave, apenas uivava muito, não comia, não bebia água, estava cega, surda, o que a deixava nervosa, pois ela não conseguia vê-la naquele estado de inanição. Peguei aquela criaturinha frágil nos meus braços e lancei um longo olhar para a profissional, já sabendo de antemão sua resposta. Ela jamais sacrificaria um animalzinho por velhice simplesmente sem que ele tivesse algo incurável.

-E agora? O que eu faço?...- Retrucou a senhora...Não precisava fazer nada, absolutamente nada, não dar nenhum medicamento, muito menos praticar a eutanásia, bastava que elas se despedissem, que a senhora voltasse para casa e deixasse no meu colo a sua ?velhinha?. E assim foi feito... Após as despedidas, um breve carinho elas se separaram. Enrolei aquela frágil criatura num cobertor limpinho, passei delicadamente as mãos no seu corpinho já quase inerte, e então sentei-me em um canto da sala de consultas e cantei baixinho para ela dormir.

Após longos minutos ela uivou, procurou com aqueles ternos olhos anuviados pela cegueira por toda sala sua companheira de longos anos... Ela não estava lá, lançou então um último olhar para mim como que perguntando para onde ela havia ido. Eu não contei nada, fiz uma breve carícia e ela fechou para sempre aqueles velhos e cansados olhos.

Ela se foi, mas deixou dentro de mim uma lição que eu jamais teria outra igual, e que enquanto eu viver vou me lembrar. Foi através de uma pequena cadelinha vira-latas que aprendi a grandeza de um sentimento chamado AMOR, sentimento esse já tão em extinção entre os seres humanos. Ah, minha pequena criaturinha, o amor existe e ele é a única força capaz de manter qualquer ser, qualquer um... Verdadeiramente vivo, e é através desse único sentimento que o Universo ainda permanece quase que intacto.

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